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Depoimentos
O bom velho Bill, herói progressista
Como chegar à “presença grotescamente paga” de Bill Clinton
9 de Agosto de 2007
John Pilger (*)
Fonte: The New Statesman, Londres
No dia 14 de Agosto, você está convidado para “uma audiência” com Bill Clinton. Pode escolher. Participar no “pequeno-almoço e discurso” ou “brunch [refeição entre o pequeno-almoço e o almoço] e discurso”. A coisa terá lugar no confortável Millenium Dome, onde um lugar no “King’s Row” lhe custará 799 libras. No ano passado, Clinton fez mais de 5 milhões de dólares a dar “audiências”. Não são os habituais administradores de empresas que participam. Há alguns anos, vi uma longa fila de escritores, jornalistas, editores e outra gente de reputação progressista a precipitarem-se para a sua presença grotescamente paga no Guardian Hay Festival.
 
O cravanço de Clinton é sintoma da morte do progressismo – não da sua ala narcisista e amante da guerra (a “intervenção humanitária”) que está em ascenso, mas o progressismo que denuncia os crimes cometidos em seu nome, e ajudando à melhoria económica dos de baixo. Foi promovendo os primeiros e esmagando os segundos que Clinton inspirou a tal ponto o novo “projecto” dos Trabalhistas. Clinton, e não Bush, o padrinho mafioso da Cool Britannia (**). Os observadores penetrantes de Tony Blair lembrar-se-ão de que, num dos seus numerosos discursos de despedida, o arrivista fez uma estanha incorporação dos meneios de cabeça de Clinton.
 
Clinton é capaz de reunir grandes maquias por ser, comparado com o desprezado Bush, o bom rapaz defeituoso que fez o melhor que podia pelo mundo e trouxe o boom económico aos EUA – o lendário sonho americano, nem menos. Ambos esses atributos são mentiras finamente urdidas. O que Clinton e Blair mais têm em comum é serem os líderes mais violentos dos seus países nos tempos modernos; incluindo Bush. Vejam só o verdadeiro cadastro de Clinton:
 
Em 1993, deu continuidade à invasão de Bush pai na Somália. Invadiu o Haiti em 1994. Bombardeou a Bósnia em 1995 e a Sérvia em 1999. Em 1998, bombardeou o Afeganistão; e na altura dos problemas com a Monica Lewinsky, desviou momentaneamente a atenção dos escritores de títulos para um importante “alvo terrorista” no Sudão, que mandou destruir com um chuva de mísseis. Acontece que se tratava da maior fábrica de medicamentos da África sub-sahariana, única abastecedora de cloroquina, o tratamento para a malária, e de outros medicamentos vitais para centenas de milhares de pessoas. Em resultado disso, escreveu Jonathan Belke, então na Fundação do Próximo-Oriente, “dezenas de milhares de pessoas – muitas delas crianças – sofreram e morreram de malária, tuberculose e outras doenças curáveis”.
 
Muito antes da operação “Choque e Pavor”, já Clinton estava a destruir e a matar no Iraque. Com base na pretensão ilegal de uma “zona de exclusão aérea”, ele supervisionou o bombardeamento aliado mais longo desde a 2ª Guerra Mundial. Tudo isto foi cruamente publicitado. Ao mesmo tempo, impôs e agravou um embargo económico liderado por Washington que se calcula ter custado a vida a um milhão de pessoas. “Achamos que esse preço vale a pena”, disse a sua Secretádia de Estado, Madeleine Albright, num estranho momento de sinceridade.
 
O “legado” económico de Clinton – tal como o de Blair – é a sociedade mais desigual que os estadunidenses já conheceram. No último ano da sua presidência, 1999, quando passeava na avenida marginal de Santa Monica, na Califórnia, fiquei chocado com os inúmeros sem-abrigo da classe média, “cavalheiros de saco” que tinham perdido empregos de executivos e famílias graças, em grande parte, ao seu Tratado de Livre Comércio da América do Norte. Para os estadunidenses com trabalho, os números do emprego, falsificados em alta, escondiam uma reversão para os níveis de salários dos anos ’70. Foi Clinton, e não Bush, que varreu o que restava do “New Deal” de Roosevelt. Quando voltei a Santa Monica no outro dia, reparei que o número de pedintes se tinha multiplicado.
 
Agora, vemos o Bom Velho Bill, ou o Rapaz Regressado, como vai sendo alternativamente chamado, meneando a cabeça nos telejornais, a fazer campanha pela mulher, Hillary, no meio dos estadunidenses que, ingénuos incuráveis, ainda acreditam que o Partido Democrático é deles e que “é tempo de eleger uma mulher para a Casa Branca”. Juntos, os Clinton são conhecidos pelos “Billary”, e é mesmo isso. Como o seu Bon Velho Bill, a mulher dele não tem plano nenhum para resolver as divisões de uma sociedade que permite a 130.000 estadunidenses tomarem para si a riqueza de milhões dos seus concidadãos. Como o Bom Velho Bill, ela quer continuar o suplício do Iraque por talvez mais uma década. E também não pôs “for a de questão” um ataque contra o Irão.
 
Os que se sentarem no King’s Row do Millenium Dome no dia 14 de Agosto, para o pequeno-almoço ou para o brunch com o Bom Velho Bill, depois de terem transferido uma boa maquia para a conta bancária de Clinton, certamente não irão reflectir acerca do sangue espalhado ou do épico sofrimento provocado, ou acerca da corrupção moral da ideologia progressista que cortejou e aplaudiu Clinton, juntamente com o criminoso Blair.
 
Nós sim, devíamos fazer isso.
 

(*) John Pilger, reputado jornalista de investigação e documentarista, é um dos dois únicos que ganharam por duas vezes o maior prémio jornalístico britânico; os seus documentários ganharam prémios das Academias, tanto no Reino Unido como nos EUA. Num balanço dos 50 heróis do nosso tempo, no The New Statesman, Pilger vem em 4º lugar, depois de Aung San Suu Kyi e Nelson Mandela. “John Pilger”, escreveu Harold Pinter, “desenterra, com factos nítidos e duros como o aço, a verdade repugnante. Eu o saúdo”.
 
(**) Cool Britannia foi um termo usado nos médias nos anos ’90 para designar a cultura política dos primeiros anos do blairismo, um jogo de palavras com o hino patriótico Rule, Britannia.
 

Artigo original em inglês aquiLigação externa.
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