TribunalIraque.info
© 2014 TribunalIraque.info. Todos os direitos reservados.
Pedido de informações | Webmaster
Depoimentos
Como funcionam as prisões secretas da CIA
19 meses de pesadelo
14 de Dezembro de 2007
Mark Benjamin
Fonte: www.salon.com (Washington, EUA)
A CIA manteve preso Mohamed Farag Ahmad Bashmilah em várias celas diferentes durante o seu encarceramento na rede de prisões secretas conhecidas como “buracos negros”. Mas as pequenas celas são todas quase iguais, com cerca de 2 por 3 metros. Por vezes estava completamente despido, por vezes algemado durante semanas seguidas. Numa das celas, estava acorrentado pelo tornozelo a um grampo metálico preso ao chão. Havia uma pequena retrete. Noutra cela, apenas um balde. Câmaras de vídeo registavam todos os seus movimentos. As luzes estavam sempre acesas – não havia dia ou noite. Um altifalante submergia-o continuamente com ruído branco, ou com música rap, 24 horas por dia.
 
Os guardas tinham fardas e máscaras pretas. Não pronunciavam uma palavra quando iam buscar Bashmilah para os interrogatórios – uma das suas raras interacções com outros seres humanos ao londo dos 19 meses de prisão. Ninguém lhe disse onde estava, ou se iria ser libertado.
 
Quanto baste para qualquer pessoa endoidecer. Por fim Bashmilah tentou cortar os pulsos com um pedacinho de metal e, com o próprio sangue, gatafunhou nas paredes da cela as palavras “Eu estou inocente”. Mas a CIA tapou-as com tinta.
 
Então Bashmilah deixou de comer. Mas quando o peso desceu para 40 kg, foi arrastado para uma sala de interrogatório, onde lhe meteram à força um tubo pelo nariz, até ao estômago. Alimentaram-no com líquidos pelo tubo. A CIA não iria permitir que ele morresse.
 
Por várias vezes, quando o estado mental de Bashmilah se degradava perigosamente, a CIA fazia outra coisa: entregava-o aos cuidados de profissionais de saúde mental. Bashmilah pensa que se tratava de psicólogos e psiquiatras treinados. “Tentavam levar-me a recuperar ânimo e traquilizar-me”, disse Bashmilah numa entrevista telefónica, com ajuda de um intérprete, a partir do seu Iémene natal. “Uma das coisas que me diziam era para não me reprimir de chorar, e para respirar”.
 
Em Junho passado, o Salon noticiou a utilização de psicólogos pela CIA, como apoio nos interrogatórios de suspeitos de terrorismo. Mas o papel dos profissionais de saúde mental a trabalharem para a CIA nos “buracos negros” era até agora desconhecido na história arrepiante e kafkiana das prisões secretas da Agência no estrangeiro.
 
Pouca informação foi publicada, até agora, acerca das condições de encarceração de Bashmilah. As descrições pormenorizadas da entrevista concedida ao Salon e de documentos judiciais recentemente arquivados, dão-nos uma primeira descrição completa, na primeira pessoa, acerca do cativeiro num “buraco negro” da CIA. Os advogados e juristas dos direitos humanos reconstituiram metodicamente todo o seu caso, usando as descrições de Bashmilah acerca das celas e dos carcereiros, assim como documentos dos governos da Jordânia e do Iémene e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, para verificação do seu testemunho. Os registos de voos, com os pormenores dos movimentos dos aviões da CIA, também confirmam as declarações de Bashmilah, seguindo o seu rasto do Médio Oriente até ao Afeganistão e depois na volta, já preso pelos EUA.
 
A história de Bashmilah também parece indicar claramente que se trata de um homem inocente. Depois de 19 meses de prisão e de sofrimentos às mãos da CIA, a Agência libertou-o sem qualquer explicação, como sem explicação o prendera antes. Não foi acusado de terrorismo. Não o deixaram ter um advogado. Não viu qualquer juiz. Foi simplesmente solto, com a vida destroçada.
 
“Isto mostra o impacto humano deste programa e as vidas arruinadas pelo programa de detenções secretas da CIA”, disse Margaret Satterwaite, advogada de Bashmilah e professora da Escola de Direito da Universidade de Nova Iorque. “Trata-se de tortura psicológica e do sentimento de estar desaparecido”.
 
Bashmilah, aos 39 anos de idade, é agora um homem fisicamente livre, mas sofre ainda as consequências de uma detenção e de maus tratos prolongados. Está a ser tratado dos danos causados às mãos do governo dos EUA. Na sexta-feira, Bashmilah expôs toda a história numa deposição perante um tribunal distrital dos EUA, no âmbito de um processo civil da ACLU [American Civil Liberties Union] contra a Jeppesen Dataplan Inc., uma subsidiária da Boeing acusada de dar apoio aos voos secretos da CIA.
 
Bashmilah disse, na entrevista telefónica, que o tormento psicológico num “buraco negro” da CIA é exacerbado pelo desconhecimento total dos prisioneiros sobre as circunstâncias. Embora ele presumisse que estava detido pelos estadunidenses, Bashmilah não sabia ao certo porquê, nem onde estava ou se voltaria a ver a família. Disse: “Sempre que penso que pode haver outras pessoas que ainda se encontram lá onde eu tanto sofri, sofro outra vez por essa gente inocente que teve o azar de cair nesse alçapão”.
 
Pode parecer estranho o facto de a Agência dar assistência a um preso, ao mesmo tempo que o tenta quebrar mentalmente – como que mostrando um aspecto humanitário de um programa estruturado para, pelo contrário, explorar sistematicamente os maus tratos psicológicos. Mas pode dar-se o caso de esses profissionais de saúde mental serem contratados para, precisamente, ajudarem a recuperar prisioneiros que atingem os limites da resistência e apresentam danos quase irreversíveis, cujas mentes desgastadas já não são controláveis em interrogatório. “Eu acho que a presença de psiquiatras significa que, se o preso se sentir melhor, então poderá falar mais nos interrogatórios”, disse Bashmilah.
 
Em boa verdade, em tais circunstâncias, os psiquiatras pouco podem fazer contra o sofrimento profundo dos presos às mãos da CIA. “De facto, eles não tinham qualquer poder real para lidar com a situação”, disse Bahsmilah acerca do seu sofrimento mental. Contou que os médicos lhe disseram para “ter esperança de que um dia conseguiria provar a sua inocência, ou que havia de voltar para junto da família”. Além disso, os psiquiatras deram-lhe medicamentos, provavelmente tranquilizantes. Analisaram-lhe os sonhos. Mas pouco mais podiam fazer. “Deram-me um cubo de Rubik para me ajudar a passar o tempo. e alguns puzzles”, recordou Bashmilah.
 
O pesadêlo começara um dia, nos finais de 2003. Bashmilah viajara para a Jordânia, vindo da Indonésia onde vivia com a mulher e trabalhava no negócio do vestuário. Ele e a mulher tinham ido à Jordânia encontrar-se com a mãe de Bashmilah, que for a lá ter com eles. A família tinha esperanças de conseguir que a mãe de Bashmila pudesse ser operada ao coração num hospital de Amã. Mas, antes de sair da Indonésia, Bashmilah tinha perdido o passaporte e viajava com uma segunda via. Quando chegou à Jordânia, funcionários jordanos fizeram perguntas sobre a falta de carimbos no novo passaporte, e ficaram mais desconfiados quando Bashmilah admitiu ter visitado o Afeganistão em 2000. Bashmilah foi detido pelas autoridades jordanas em 21 de Outubro de 2003. Só voltaria a aparecer quando desceu de um avião da CIA em 5 de Maio de 2005, no Iémene.
 
Os funcionários da polícia secreta jordana logo desconfiaram da inocência aparente de Bashmilah. Depois de ser detido, os jordanos espancaram-no com brutalidade, bombardeando-o com perguntas sobre a Al Qaeda. Foi forçado a voltear sobre si próprio até cair completamente estonteado. Os agentes penduraram-no de cabeça para baixo com uma tira de couro, com as mãos amarradas. Bateram-lhe nas solas dos pés e dos lados. Ameaçaram electrocutá-lo, mostrando-lhe os fios. Disseram-lhe que iam violar a mãe e a mulher dele.
 
Foi demais. Bashmilah assinou uma confissão de várias páginas, mas nem sequer as leu, de tão desorientado e aterrorizado que estava. “Tive a noção clara de que estavam lá coisas que eu não disse”, escreveu na declaração que fez ao tribunal nesta sexta-feira. “Eu até assinava uma centena de páginas, desde que parassem o interrogatório”.
 
Bashmilah foi entregue à CIA às primeiras horas de 26 de Outubro de 2003. Os agentes jordanos entregaram-no a “um homem branco, alto, corpulento e um pouco calvo, vestido à civil, com óculos escuros de lentes pequenas e redondas”, escreveu na declaração. Não fazia ideia de quem seriam estes novos carcereiros nem de que estava a começar um calvário de 19 meses nas mãos do governo dos EUA. E, embora tendo sido agredido fisicamente poucas vezes, descreve um regime de detenção concebido para infligir um sofrimento psicológico extremo.
 
Perguntei a Bashmilah o que era pior: as pancada física às mãos dos jordanos, ou as agressões psicológicas da CIA. “Eu considero a tortura psicológica de que fui alvo muito pior do que a tortura física”, respondeu. Para ele, a detenção pela CIA foi “como se estivesse dentro do próprio túmulo”.
 
“Quando acontecia ver uma mosca na minha cela, ficava cheio de alegria”, disse. “Embora desejasse que ela se esgueirasse por baixo da porta, para não estar presa como eu”.
 
Após um curto trajecto de automóvel até um edifício do aeroporto, as roupas de Bashmilah foram-lhe retiradas à tesoura por agentes fardados de preto e mascarados, com luvas de cirurgia. Um deles enfiou um dedo no ânus de Bashmilah. Vestiram-lhe uma fralda, uma camiseta azul e umas calças. Com os olhos e os ouvidos tapados, foi então acorrentado, embrulhado e amarrado a uma maca dentro de um avião.
 
Os registos de voos indicam que Bashmilah foi levado de avião para Cabul. (Os registos mostram que o avião partiu inicialmente de Washington, e fex escalas em Praga e em Bucareste). Quando aterraram, forçaram-nos a manter-se deitado num jipe trepidante durante 15 minutos e levado para um edifício. Tiraram-lhe a venda dos olhos, e Bashmilah foi examinado por um médico estadunidense.
 
Foi então colocado numa cela sem janelas e gelada, com cerca de 2 metros por 3. Havia um colchão de espuma, uma manta e um balde para as necessidades que era esvaziado uma vez por dia. Uma lâmpada nua estava sempre acesa. Uma câmara de vídeo estava montada por cima de uma sólida porta metálica. Durante o primeiro mês, música de rap e árabe muito alta entrava na cela, 24 horas por dia, através de um buraco na parede, do lado oposto à porta. Estava acorrentado à parede pelos tornozelos. Os guardas não o deixavam dormir, obrigando-o a levantar a mão de meia em meia hora, para mostrar que ainda estava acordado.
 
As celas alinhavam-se umas a seguir às outras, mas com espaços entre elas. Acima dos tectos baixos parecia haver um outro tecto, como se a prisão estivesse dentro de um hangar de aviões.
 
Ao fim de 3 meses a rotina tornou-se insuportável. Bashmilah tentou, sem êxito, enforcar-se com a manta e cortou os pulsos. Deu cabeçadas nas paredes para tentar perder a consciência. Foi metido em três celas sucessivas, mas idênticas, ao longo da detenção em Cabul. Em dada altura, a cela em frente à dele estava a ser usada para interrogatórios. “Embora eu não estivesse a ser espancado na sala de tortura e interrogatório, ao fim de algum tempo comecei a ouvir os gritos dos presos que estavam a ser torturados nessa sala”, escreveu.
 
Mesmo sem lhe baterem, Bashmilah foi interrogado muitas vezes. “Durante todo o período em que estive ali detido, fui mantido em confinamento solitário e não vi ninguém além dos guardas, dos interrogadores e de outro pessoal prisional”, escreveu na sua declaração. Um interrogador acusou-o de estar comprometido no envio de cartas a um contacto em Inglaterra, mas Bashmilah diz que não conhece ninguám naquele país. Outras vezes mostraram-lhe fotografias de pessoas que igualmente afirma desconhecer.
 
“Isso é uma forma de tortura”, disse-me. “Sobretudo quando a pessoa sujeita a isso não fez nada”.
 
Na declaração, Bashmilah deixou claro que a maioria dos agentes prisionais falavam inglês com sotaques estadunidenses. “Os interrogadores também referiam muitas vezes relatórios que vinham de Washington”, escreveu.
 
Ao fim de 6 meses foi tranferido, sem aviso nem explicação. Em 24 de Abril de 2004, ou à volta desse dia, Bashmilah foi empurrado para for a da cela e metido numa sala de interrogatório, onde o despiram completamente. Um médico estadunidense que tinha uma mão desfigurada examinou-o, registando anotações numa folha com um diagrama do corpo humano. Guardas mascarados de preto voltaram a vesti-lo com uma fralda, umas calças de algodão e uma camisa. Foi vendado, amarrado, embrulhado, forçado a colocar tampões nos ouvidos, e deitado em linha no fundo de um jipe com outros detidos. Lembra-se de ter sido então forçado a subir para um avião que os esperava e de um voo que durou várias horas, seguido por outro voo de várias horas no chão de um helicóptero.
 
Depois de aterrar, foi metido num veículo para uma curta viagem. Deu então alguns passos até entrar noutra prisão secreta – localização desconhecida.
 
Foi metido numa sala, e novamente despido. Tiraram-lhe fotografias ao corpo, de todos os lados. Foi rodeado por cerca de 15 pessoas. “Todos eles, excepto o que tirava as fotografias, tinham aquele tipo de máscaras pretas que os ladrões costumam enfiar na cabeça”, escreveu Bashmilah na declaração.
 
Foi novamente examinado por um médico, que tomou notas numa folha com o diagrama do corpo humano. (Era igual à que vira no Afeganistão. Bashmilah viu a anotação da sua cicatriz de vacina no diagrama). O médico inspeccionou-lhe os olhos, os ouvidos, o nariz e a garganta.
 
Foi então metido numa cela fria, totalmente despido.
 
Era outra pequena cela, nova ou melhorada com uma sanita e um lavatório de aço inoxidável. Até lhe darem roupas, vários dias mais tarde, Bashmilah tiritou de frio envolvido na sua manta. Nesta cela havia duas câmaras de vídeo, uma por cima da porta e outra numa parede. Também por cima da porta estava um altifalante. Dia e noite, emitia ruído branco, como o som da estática. Passou o primeiro mês algemado. Nesta cela, tinha o tornozelo preso a uma corrente de bicicleta fixada a um grampo no chão.
 
A porta tinha uma pequena abertura ao nível do chão, por onde lhe passavam a comida: arroz cozido, fatias de carne e pão, triângulos de queijo, batatas cozidas, fatias de tomate e azeitonas, tudo num prato de plástico.
 
Os guardas vestiam calças pretas com bolsos, camisas pretas de manga comprida, luvas de borracha ou pretas, e máscaras que tapavam a cabeça e o pescoço. As máscaras tinham plástico sombreado amarelo por cima dos olhos. “Nunca ouvi os guardas falar uns com os outros, e nunca falaram comigo”, escreveu Bashmilah na sua declaração.
 
Foi novamente interrogado. Bashmilah lembra-se de o interrogador lhe mostrar o vídeo de uma conferência de um religioso islâmico num computador portátil. O interrogador queria saber se Bashmilah conhecia aquele homem, mas ele não o conhecia. Foi nestas instalações que Bashmilah cortou os pulsos, e depois fez greve da fome, para depois ser alimentado à força com um tubo pelo nariz.
 
A CIA parece ter concluído que Bashmilah não era um operacional da Al Qaeda por voltas de Setembro de 2004, quando o mudaram para uma outra cela, semelhante à anterior. Mas nesta já não havia o ruído branco. E, embora continuasse com os tornozelos amarrados, a corrente não estava fizada no chão. Levavam-no ao duche uma vez por mês. Não voltou a ser interrogado e deixaram-no mais ou menos à vontade.
 
Deram-lhe uma lista de livros que podia ler. Cerca de um mês antes de ser libertado, teve acesso a um pátio de exercício físico durante 15 minutos por semana. E foi visto por profissionais de saúde mental. “Os psiquiatras pediram-me que lhes dissesse porque estava tão desesperado, interpretaram os meus sonhos, perguntaram-me como andava a dormir e se tinha apetite, e ofereceram-me medicamentos do género dos tranquilizantes”.
 
Em 5 de Maio de 2005, Bashmilah foi encapuçado, embrulhado e metido num avião para o Iémene. Os documentos do governo iemenita dizem que o voo durou entre 6 e 7 horas e confirmam que ele foi entregue pelo governo dos EUA. Logo ficou a saber que lhe morrera o pai em fnais de 2004, sem saber onde parava o filho desaparecido ou, sequer, se estava vivo.
 
No fim da minha entrevista com Bashmilah, perguntei~lhe se tinhamais alguma coisa a dizer às pessoas. “Eu gostaria que o povo estadunidense soubesse que o islão não é inimigo das outras nações”, disse. “O povo estadunidense deveria ter voz para responsabilizar as pessoas que fazem mal a pessoas inocentes”, acrescentou. “E quando existir alguma transgressão contra o povo estadunidense, ela não deveria ser tratada com outra transgressão”.
 

Mark Benjamin é correspondente nacional do Salon, baseado em Washington.
 
Artigo original (em inglês) aquiLigação externa.
Os artigos assinados são da responsabilidade dos seus autores; as opiniões neles expressas não coincidem forçosamente com as do TMI-AP.