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Depoimentos
Egipto – Palestina: O Muro da Vergonha
10 de Fevereiro de 2010
Tariq Ramadan
Fonte: Uruknet | Tradução de F. Macias

É do conhecimento geral que os Palestinianos são há muito tempo, vítimas directas das políticas sem orientação, fracas e hipócritas dos dirigentes Árabes. É igualmente do conhecimento geral que o Estado de Israel não precisa de se esforçar para impor a sua visão, os seus métodos e objectivos. Dado o apoio dos Estados Unidos, o silêncio criminoso da Europa e a passividade complacente dos regimes Árabes, sabemos com o que podemos contar. A política externa da maior parte dos estados Árabes tem sido definida com bom rigor, por ‘pro-sionista’. A sua cobardia e deslealdade dá-se sem surpresa.

A seguir ao ataque assassino a Gaza no ano passado, pelo exército israelita, podemos ter pensado que tínhamos visto o que há de pior. Esse juízo não teve em consideração a engenharia do cenário ‘ainda pior’ produzido pelo regime Egípcio e ‘autoridades religiosas ‘de Al-Azhar. Em nome da ‘segurança nacional’, da luta contra ‘o terrorismo’, e por último, do combate à ‘corrupção’, ao ‘contrabando’ e ao ‘tráfico de drogas’, o governo Egípcio está a construir um muro com vinte metros de profundidade abaixo do chão, para impedir os “Gazas” de executarem as suas acções “ilegais” e escavarem “túneis de contrabando”. Certamente que o governo Egípcio não tem nenhuma intenção de confinar os habitantes de Gaza ao seu inferno; certamente que a medida é tomada apenas por preocupação pela segurança nacional! Tão persuasivo é o argumento que o comité de sábios religiosos de Al-Azhar rapidamente apoiaram publicamente a decisão do governo declarando que ela era” legitimada pelo Islão” (“em conformidade com a Shari’a”) para o país proteger as suas fronteiras. (Os académicos de Al-Azhar responderam assim à fatwa (parecer) emitida pela IUMS (União Internacional de Académicos Islâmico) que se tinha pronunciado exactamente pelo oposto, dizendo que a decisão do Egipto “era inaceitável para o Islão”).

Que vergonha! Assim se põe a justiça a ridículo, e se abusa do poder e da religião. Ao povo palestiniano, e à grande maioria dos habitantes de Gaza, é-lhes negada a sua dignidade e os seus direitos; são privados do acesso a comida, a água e aos cuidados de saúde básicos. E agora, o governo egípcio torna-se aliado da política de Israel, no seu pior: isolando, estrangulando, deixando à fome, e sufocando os Palestinianos civis, depois de terem erradicado centenas. O objectivo é claro: impedir toda a resistência e destruir a sua liderança. O governo egípcio bloqueou comboios de ajuda que tentavam salvar a ajuda tão necessária ao povo palestiniano, num esforço de ultrapassar o cerco a Gaza. A mobilização que trouxe centenas de mulheres e homens de todo o mundo para Rafa encontrou a recusa sistemática das autoridades egípcias em conluio com uma estratégia de humilhação selectiva.

Que vergonha! Não é de admirar que o governo israelita exulte de contentamento. Afinal, foi anunciado um novo e “promissor” início do” processo de paz”! Será uma coisa boa para todos: os Estados Unidos, juntamente com a Arábia Saudita e o Egipto não se pouparam a esforços a traçar um novo e “abrangente” plano. Verdadeiramente um esplêndido “processo de paz”, em nome do qual a população civil sofreu meses de bloqueio, antesdos seus dirigentes serem convidados a sentar-se à mesa de negociações “livres” e “respeitáveis”. Israel pode continuar a rir-se: ele pode continuar a jogar sem fazer a mínima concessão. As acções dos colonatos estão temporariamente paradas – excepto a construção de projectos que já tinham sido traçados. Negociações mais justas, seria difícil de encontrar!

Não chega podermos repetir inúmeras vezes: “o muro de segurança nacional” egípcio é um muro da vergonha. As autoridades religiosas que o legitimaram agiram exactamente como os notáveis “ulama” (académicos muçulmanos) ou “conselhos islâmicos” que servem abertamente o poder, quer seja de ditadores ou forças do colonialismo, quer de alguns auto-denominados especializados da República na manipulação da religião. O que poderá restar da sua credibilidade depois de emitirem uma “fatwa política” que dá o apoio islâmico de académicos cobardes ao poder da ditadura? O silêncio teria sido muito melhor.

Nós temos que condenar estes actos inaceitáveis e ficar ao lado daqueles que resistem com dignidade. Se há alguma coisa que os sucessivos governos israelitas sabem – e com a qual temos que concordar – é isto: o povo Palestiniano não se irá render. Para aqueles que ainda acalentam dúvidas, podemos acrescentar uma segunda certeza, a do tempo: a História está do lado dos Palestinianos; são eles que representam, hoje e amanhã, a esperança nos mais nobres valores humanos. Resistir à opressão, defender os seus legítimos direitos e a sua terra, para nunca ceder à arrogância e à mentira dos poderosos. Quanto ao poder dos Israelitas, Egípcios e outros, quanto às fatwas  da ulama  escolhida pelos governos, estes factos também passarão; passarão e serão esquecidos. Felizmente esquecidos. Porque a memória transforma-se em esquecimento quando chega aos nomes e actos dos ditadores, traidores e cobardes.

 
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