Fonte: Uruknet | Tradução de F. Macias
- Maiores taxas de cancro e defeitos de nascença junto das localidades
- Urânio empobrecido entre as substâncias venenosas reveladas pelo relatório
Mais de 40 localidades em todo o Iraque estão contaminadas com elevados níveis de radiações e dioxinas, devido a três décadas de guerra e à falta de cuidado que levaram à destruição do ambiente em muitas regiões do país, foi o que descobriu uma pesquisa oficial iraquiana.
Áreas do interior ou nas imediações das maiores cidades e povoações do Iraque, incluindo Najaf, Bassorá e Faluja, representam cerca de 25% dos locais contaminados, que parecem coincidir com as comunidades que têm visto aumentar as taxas de cancro e defeitos de nascença ao longo dos últimos cinco anos. O estudo conjunto dos ministérios do ambiente, saúde e ciência constatou que os depósitos de sucata, dentro e à volta de Bagdade e Bassorá contêm elevados níveis de radiação ionizante, que é suposto ser provocada pelo urânio empobrecido utilizado em munições, durante a primeira guerra do Golfo e na invasão de 2003.
A ministra do ambiente, Narmin Othman, disse que elevados níveis de dioxinas em terras de cultivo, principalmente do sul do Iraque, eram cada vez mais apontadas como sendo o factor chave duma degradação generalizada da saúde das pessoas que vivem nas regiões mais pobres do país.
“Se olharmos para Bassorá, há aí algumas áreas altamente poluídas, e há muitos factores a contribuírem para isso,”disse ao Guardian. “ Primeiro, porque foi um campo de batalha durante duas guerras, a do Golfo e a guerra Irão-Iraque, onde foram utilizadas muitas espécies de bombas. Além disso, foram bombardeados poços de petróleo e a maior parte da contaminação espalhou-se para dentro e em redor de Bassorá.
“Matérias em decomposição acabaram por se alojar nos pulmões das pessoas e nos alimentos que elas comiam. Naquelas zonas as dioxinas atingiram índices muito elevados e tudo isto causou problemas sistémicos, em larga escala, no âmbito ecológico e principalmente na saúde.”
Grupos de investigação governamentais debruçaram-se recentemente sobre a cidade de Faluja, devastada pela guerra, a oeste de Bagdade, onde a instabilidade da segurança tem afastado os cientistas, desde os violentos combates entre os activistas e as forças EU em 2004.
“Investigámos apenas uma zona de Faluja, até agora” disse Othman.”Mas há outras zonas que vamos tentar explorar em breve com a ajuda internacional”.
O Guardian relatou em Novembro, as declarações dos médicos locais sobre a subida maciça de defeitos de nascença na cidade, particularmente defeitos do canal neural, que afectam a espinal medula e o cérebro de recém-nascidos. “ Estamos atentos aos relatórios, mas temos que ter cuidado a tirarmos conclusões sobre as causas”, disse Othman. “Na generalidade, a saúde na cidade não é boa. Não existe qualquer sistema de saneamento e há uma quantidade de materiais tóxicos estagnados, provocando doenças que afectam directamente a estrutura genética. Sabemos, no entanto, que ali foi utilizado uma grande quantidade de urânio empobrecido.
“ Nós temos estado a regular e a monitorizar isso e estamos a tentar urgentemente montar uma base de dados. Temos tido a cooperação do programa do ambiente das Nações Unidas e temos entregado os nossos relatórios em Genebra. Estudámos 500 locais em busca de substâncias químicas e urânio empobrecido. Até agora encontrámos 42 lugares que foram declarados de alto risco, tanto em urânio como toxinas”.
Dez dessas zonas foram classificadas pelo corpo de desarmamento nuclear do Iraque, como tendo altos níveis de radiação. Incluem-se aí os lugares de três antigos reactores nucleares dos serviços de Tuwaitha – outrora o orgulho do regime de Saddam Hussein, situados na periferia a sudeste de Bagdade – assim como antigos centros de pesquisa à volta da capital que foram bombardeados ou desmantelados, entre as duas guerras do Golfo.
O chefe do corpo de desarmamento, Adnan Jarjies, disse que, quando os inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica chegaram “ para visitar estes lugares, eu disse-lhes que mesmo que nós tivéssemos a ajuda de todos os melhores cientistas do mundo, nenhum desses locais poderia ficar limpo antes de 2020.
Bushra Ali Ahmed, director do Centro de Protecção de Radiação de Bagdade, disse que apenas 80% do Iraque foi até agora pesquisado. “ Nós inspeccionámos até agora os lugares que foram contaminados pelas guerras”, disse. “ Temos mais planos para limpar meticulosamente locais que foram destruídos pela guerra.”
Um grande problema para nós é, quando nos dizem que um contentor foi destruído e depois transferido de lugar, irmos encontrar um claro rasto de radiação. Leva muito tempo para descontaminar estes lugares.”
Os locais onde há sucata são uma prioridade. Depósitos de restos de carros enferrujados e despojos de guerra estão espalhados por Bagdade e outras povoações entre a capital e Bassorá, oferecendo o acesso não controlado, tanto a crianças como a pessoas que procuram restos nas lixeiras.
Othman disse que a degradação ambiental no Iraque está-se a intensificar devido a uma grande seca e pela falta de água por todo o país, onde se tem verificado um decréscimo de 70% do volume de água nos rios Eufrates e Tigre.
“ Nós já não podemos, em boa verdade, dizer que somos a terra de entre os rios,” disse ela. “ Uma grande quantidade da água que nos abastece, é utilizada primeiro pela Turquia e pela Síria para produção de energia. Quando chega até nós já é de má qualidade. Aquela água que é utilizada na agricultura está muitas vezes contaminada. Nós estamos no meio de um desastre ambiental único.”