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Depoimentos
Os EUA utilizam a luta política entre os Iraquianos para justificarem a continuação da ocupação
6 de Março de 2010
Dahr Jamail
Fonte: Uruknet | Tradução de F. Macias

À medida que as eleições nacionais de 7 de Março se aproximam, a violência e a luta política no país tem subido dramaticamente.

Em 22 de Fevereiro, o Gen.Ray Odierno, o mais alto comandante dos EUA no Iraque, anunciou que os EU estavam a preparar planos de contingência para atrasar a retirada de todas as forças de combate do Iraque, para o caso da violência e a instabilidade política aumentar depois das eleições nacionais marcadas para 7 de Março.
Há aproximadamente 96,000 militares norte-americanos no Iraque. De acordo com o actual plano do Presidente Obama, que é a continuação da política de George Bush no Iraque, a intenção anunciada é reduzir o número de militares no Iraque para 50,000 até 31 de Agosto.
Os objectivos do governo EU é manter pelo menos 50,000 militares no Iraque indefinidamente, como uma força dita de instrução das forças de segurança iraquianas.
No próprio dia 22 de Fevereiro, o mesmo dia em que o General Odierno fez o seu comentário, pelo menos 44 iraquianos e um soldado norte-americano foram mortos em ataques que assolaram o Iraque. Num destes ataques, uma mulher bombista suicida causou a morte de mais 22 pessoas e ferimentos noutras 33, num ataque à casa do comissário da polícia de Balad Ruz. Num outro, três disparos de morteiros atingiram a chamada Zona Verde de Bagdade, ferindo pelo menos seis pessoas.
Analistas iraquianos compararam estes ataques a outros de grande violência que ocorreram durante a carnificina sectária que devastou o Iraque, entre 2006 e 2007.
No dia 19 de Fevereiro, apenas uns dias antes de Odierno ter feito o comentário sobre a possibilidade de, no caso da violência continuar, a retirada dos EU ser adiada, o Brig. Gen. norte - americano Kevin Mangum avisou que a violência no Iraque pode piorar como resultado das próximas eleições.
As eleições têm sido vistas como o ponto central para a administração Obama, na expectativa que elas possam trazer maior estabilidade política ao Iraque, além de permitirem a retirada dos EU.
Em vez disso, até agora, elas estão a ter o efeito contrário, como o General Mangum sugeriu que podia acontecer.
“Haverá disputa partidária depois das eleições? “ perguntou Mangum. “Essa é a nossa maior preocupação neste momento.”
Mangum, um dos comandantes militares mais antigos no Iraque, avisou que o período após as eleições nacionais, pode bem ser mais perigoso do que o próprio dia do acto eleitoral. Os comentários de Mangum mostram que os militares podem já estar à espera dos planos de contingência de Odierno do atraso da retirada ser uma realidade.
Entretanto, o processo político do Iraque, parece já estar em colapso, em grande parte fomentado pelos actuais e os antigos actores apoiados pelos EU.
Meses de atrasos e crescentes apelos a boicotes, a juntar aos novos boicotes às eleições, feitos por candidatos e grupos que foram recentemente impedidos de participarem, estão a incentivar a polémica política, que ameaça impedir qualquer partido de formar com sucesso um governo, a seguir às eleições.
Um dos mais proeminentes parlamentares sunitas, Saleh al-Mutlaq, da National Dialogue Front (Frente do Diálogo Nacional), decidiu recentemente retirar o seu partido do processo eleitoral e boicotar as eleições, depois de ser excluído pela Accountability and Justice Committee (Comité Responsabilidade e Justiça) que o acusou de ligações ao extinto Partido Baas do Iraque.
Mutlaq contesta aquilo que, juntamente com muitos políticos Xiitas chamam de uma campanha de “vis trapaças” que ele acredita ser planeada pelo Irão, o qual anseia assegurar o poder a favor de um governo Xiita. Muitos analistas vêem neste acto, um reflexo do boicote sunita às eleições Parlamentares de 2005, que levou a que grande parte da população do Iraque fosse privada do direito de voto, e foi visto como um importante causador da violência sectária que se seguiu.
As acusações de Mutlaq ganham credibilidade no que toca ao Primeiro.Ministro Iraquiano Nouri al-Maliki.
O governo dos EU e os media corporativos preferem dar enfoque à “intromissão “ do Irão no Iraque; no entanto os actores chave responsáveis pela maior parte da discórdia política no Iraque, são homens empossados e apoiados pelos EU, que sempre tiveram claras ligações a Teerão.
Maliki é um exemplo importante disso.
Maliki foi um iraquiano no exílio em Teerão de 1982 a 1990, permanecendo então na Síria antes de regressar ao Iraque, depois da invasão dos EU em 2003. Maliki trabalhou como funcionário político, para o Partido Dawa enquanto esteve na Síria, estabelecendo fortes ligações com o Hezbollah e o Irão.
O Partido Dawa apoiou a Revolução Iraniana, assim como apoiou Ayatollah Ruhollah Khomeini durante a guerra Irão e Iraque. O grupo continua a receber apoio financeiro de Teerão. Maliki é o secretário-geral do Partido Dawa.
Em Abril de 2006, a então Secretária de Estado EU Condoleeza Rice e o seu homólogo inglês Jack Straw, viajaram para Bagdade, a fim de substituírem o então Primeiro-Ministro iraquiano Ibrahim al-Jafaaripor Nouri al-Maliki. Não houve nenhum processo democrático envolvido na decisão.
Outro ex-patriota iraquiano apoiado pelos E.U. e com ligações ao Irão é Ahmed Chalabi.
Recentemente o embaixador dos EU no Iraque, Christopher Hill, junto com o General Odierno, referiram-se a Chalabi como o principal agente de Teerão no Iraque. Na semana passada o General Odierno disse que Chalabi, que lidera o Justice and Accountability Committee do Iraque o qual excluiu certos candidatos das próximas eleições, foi “claramente influenciado pelo Irão” .
Chalabi desempenhou um papel importante, ao fornecer à administração Bush as informações que esta queria, a fim de justificar a invasão do Iraque. Ele é responsável por ter eliminado Mutlaq das eleições juntamente com centenas de outros candidatos, com os pretextos mais ardilosos de que são ou foram fieis ao Partido Baas de Saddam Hussein.
Além de dirigentes Sunitas, os seus alvos também incluem nacionalistas laicos, e os dois mais importantes candidatos que foram banidos são líderes de alianças cruz-sectárias, o que faz aumentar o receio de que o Iraque seja arrastado para uma autocracia Xiita.
Outro partido político de liderança sunita, o Partido Islâmico Iraquiano, acusa os EU de abrirem a porta à “influência iraniana” no Iraque, bem como da decisão da Frente do Diálogo Nacional (NDF) de boicotar as eleições de Março.
“Nós, no Partido Islâmico Iraquiano ficámos surpreendidos ao lermos as declarações dos EU quanto às intromissões negativas do Irão nos assuntos internos do Iraque”, afirmou o partido num manifesto em 22 de Fevereiro, exprimindo o seu “pesar” pela decisão de boicote da NDF,
“Nós perguntamos: Quem fez da terra Iraquiana um teatro aberto para a intromissão regional e internacional? Quem é legal e eticamente responsável pelas violações do Iraque?”continuou o grupo no seu manifesto.
O governo iraquiano e a oposição estão a lançar ameaças e acusações uns aos outros.
No dia 20 de Fevereiro, o jornal As-Sabah relatava que Maliki afirmou que está a entrar no Iraque dinheiro do exterior, com o fim de influenciar o resultado das eleições.
No dia 21 de Fevereiro, o jornal A-Jarida informava que Mutlaq apresentou isso como uma razão para a sua decisão em boicotar as eleições: “A seguir às declarações feitas ontem pelo comandante do exército norte-americano no Iraque, o General Ray Odierno, e do Embaixador em Bagdade, Christopher Hill, acredito que o Justice and Accountability Committee é dirigido por grupos do exterior, nomeadamente a Al-Quds em Teerão. Por essa razão, a Frente do Diálogo Nacional anunciou o seu boicote às eleições.”
A Al-Quds é uma unidade especial do Exército Iraniano, de Guardas da Revolução Islâmica. A Quds é definida como um grupo, cuja missão principal é, organizar, treinar, equipar e custear movimentos revolucionários islâmicos no estrangeiro, e está directamente ligada ao Líder Supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei.
Como resultado de tudo isto, os observadores internacionais das próximas eleições do Iraque, estão a baixar as expectativas quanto ao processo eleitoral. Poucos diplomatas em Bagdade falam agora em “eleições livres e justas”. Em vez disso, a nova meta publicamente estabelecida é haver uma “eleição credível”; no entanto, mesmo essa parece duvidosa nesta altura.
No dia 23 de Fevereiro, o jornal Al-Arab trazia um artigo de opinião de Fadel al-Rubaie. “Analistas políticos dão como certo que o cenário após as eleições será muito mais perigoso do que o que decorre agora (ante eleições) porque o conflito vai estourar entre as diferentes forças e em mais do que uma frente”, escreveu Rubaie, antes de continuar a examinar as maquinações políticas já mencionadas acima, entre os candidatos e os partidos.
Por estas razões, assim como outros assuntos laterais, como o controlo curdo em Kirkuk, no norte e a questão do federalismo no Iraque, a conclusão de Rubaie é agourenta: “Por todas estas razões, seria uma falsa ilusão dizer que a solução mágica para o Iraque residia nas eleições, porque muito pelo contrário, estas eleições podem abrir os portões do inferno.”

 
Os artigos assinados são da responsabilidade dos seus autores; as opiniões neles expressas não coincidem forçosamente com as do TMI-AP.