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Depoimentos
Silenciados por falarem a verdade sobre Guantanamo
25 de Maio de 2010
Robert Fisk
Fonte: The Independent | Tradução de F.Macias

Comecei a minha coluna da semana passada com as palavras “Sabemos tudo sobre Guantanamo”. Estava errado. Por cortesia da imprensa de Toronto – há alguns dias, quando metade foi censurada fora dos tribunais marciais que passam por “justiça” neste lugar execrável – eu aprendi muito mais.

Como o caso envolve um cidadão Canadiano, e como o governo do Canadá está pouco interessado no seu prisioneiro (portador de passaporte) – não tem havido muita publicidade à volta dele neste lado do Atlântico. E devia haver.

Omar Khadr tinha 15 anos quando, alegadamente – a palavra “alegadamente” vai ter que ser usada continuamente, uma vez que este não é um julgamento justo – atirou e matou um soldado das forças especiais norte-americanas, no leste do Afeganistão em Julho de 2002. A semana passada, um ex-membro destas forças dos EUA, chamado Damien Corsetti, que tinha a alcunha de “O Monstro” na cadeia de Bagram onde a tortura e o assassínio eram prática corrente, confirmou através de um vídeo do “tribunal” de Guantanamo, que Khadr foi enforcado numa prisão “um dos piores lugares à face da terra”. “Nós basicamente podíamos fazer tudo para amedrontar os prisioneiros” declarou Corsetti.

Era proibido bater, admitiu “o Monstro”, mas os presos podiam ser ameaçados com “cenários de pesadelo” como o de serem entregues ao Egipto ou a Israel onde, segundo o Globe and Mail do Canadá, “desapareceriam”. Isto diz-nos muito sobre Israel. Ou o que os norte-americanos pensam de Israel. E muito faz pensar também sobre o Egipto.

Devo acrescentar que Khadr, que tem agora 23 anos, foi gravemente ferido quando foi trazido para Bagram. Como Corsetti disse, “Ele era um miúdo de 15 anos, com três buracos no corpo, e um monte de estilhaços na cara.” Os rapazes em Bagram – guardas e inquiridores, deram-lhe a alcunha de “o rapaz do chumbo grosso”. Inteligentes, não?!

Corsetti, devo acrescentar também, foi bondoso para Khadr. Ele foi primeiro absolvido de acusações de abusos aos detidos – que não envolveram Khadr – e agora diz que ele é um veterano inválido a ser tratado de “ stress pós-traumático”. Por outras palavras, isto fez a defesa decidir a favor de Khadr.Mas não o governo canadiano, que pediu à administração Obama para omitir o facto de em 2003 e 2004, Khadr ter dado informações a oficiais do departamento dos negócios estrangeiros de Otava e a agentes dos serviços de informação e segurança do Canadá (CSIS, para quem queira saber).

O Supremo Tribunal do Canadá (o qual me agrada, porque parece ser justo) já declarou que as condições de Khadr na prisão de Gantanamo, quando interrogado pelo CSIS, “constituiu uma clara violação do compromisso do Canadá para com os direitos humanos internacionais.”

Outro inquiridor norte-americano em Bagram, um sargento que ficou conhecido nos interrogatórios em Guantanamo, interrogou Khadr sobre a sua acção como Talibã. Este inquiridor, chamado Joshua Claus, foi mais tarde condenado por abusos aos detidos, embora não a Khadr. Claus também se confessou culpado por atacar um taxista afegão inocente que morreu na prisão de Bagram.

Nós sabemos quem é Claus porque ele deu entrevistas à imprensa, entre as quais, o Toronto Star, em 2008, em que afirmou que os seus antigos empregadores“tentaram insinuar que eu batia e torturava pessoas com quem eu nunca falei” disse Claus, “Omar foi quanto muito, o meu primeiro grande caso. Com Omar, eu passei muito tempo a tentar perceber quem era e o que poderia dizer-lhe ou fazer por ele, quer fosse trazer-lhe outra comida ou levar uma carta para a sua família.” Havia muito mais coisas nestes interrogatórios, uma técnica para impor o medo, por exemplo, um medo que envolvia a ameaça de violação “por quatro grandes tipos negros”.

Por outras palavras, outra história horrível e obscena de Guantanamo. Mas esperem. Nós não podemos fazer este tipo de publicidade na imprensa canadiana, ou podemos? Não pelo menos enquanto o próprio governo de Khadr não fizer nada por ele. Assim, vejam. O Pentágono anunciou que mais de metade da imprensa canadiana – incluindo o Globe and Mail  e o Star– já não poderão fazer reportagens sobre os “métodos” de Guantanamo porque eles deram o nome de Claus como um dos inquiridores – embora Claus tivesse dado entrevistas à imprensa há dois anos. Mas o seu nome não apareceu ligado a Guantanamo. Percebem?

A informação que já é do domínio público, deixa de o ser quando aparece ligada a um interrogatório em Cuba. (Sim, não podemos esquecer que na verdade Guantanamo é em Cuba, manchada de sangue!) O Pentágono nem chamou os repórteres em causa – eles utilizaram emails, claro, porque poderia haver discussão, não é?

Imparcialidade em tribunal? Não é o que nós descobrimos. O pai de Khadr era um oficial da Al-Qaeda. A sua vida foi quase seguramente, salva por médicos norte-americanos - existem alguns bons tipos nestas guerras – mas foi definitivamente torturado; e o Canadá (aqui eu cito o excelente editorial do Globe and Mail ) “ de um modo servil e ilegal participou do crime. Transformou as consequências dos seus próprios interrogatórios ao sr.Khadr em acusação, numa altura em que as comissões militares não tinham uma defesa explícita contra provas obtidas coercivamente.”

É pena não podermos saber muito mais sobre esse julgamento, pelo menos não no Canada. O Star e o Globe and Mail, desde então não se referiram mais à pessoa de Claus. Acho que não é de admirar: Mas lembrem-se do que leram aqui.

 
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