Michael R. Gordon, Mark Mazetti e Thom Shanker (New York Times)
O número de bombas colocadas nas bermas no Iraque cresceu em Julho, atingindo o total mensal mais alto desde o início da guerra, mostrando assim que a insurreição anti-EUA continuou a reforçar-se apesar de ter sido morto o líder terrorista Abu Musab Al-Zarkawi.
Ao mesmo tempo que há um recrudescimento dos confrontos sectários, o número de ataques contra as forças de segurança estadunidenses e iraquianas duplicou desde Janeiro. O tipo mais mortífero de ataque, as bombas nas bermas das estradas, foi o que mais contribuiu para esse aumento. Em Julho, em 2.625 engenhos explosivos, 1.666 explodiram e 959 foram descobertos antes de detonar. Em Janeiro, 1.454 bombas explodiram ou foram descobertas.
A estatística das bombas - compilada pelas autoridades militares dos EUA em Bagdade e posta à disposição do
New York Times - enquadra-se num crescente conjunto de dados e análises dos serviços de informações acerca da violência no Iraque que vem provocando declarações públicas sombrias por parte de comandantes militares, colaboradores do governo e legisladores do Capitólio.
"A insurreição tem-se agravado em quase todos os aspectos, com os ataques insurrectos a subirem para níveis históricos", disse um quadro superior do departamento da Defesa que só aceitou falar sobre o assunto na condição de manter o anonimato, por não estar explicitamente autorizado a fazê-lo. "A insurreição tem mais apoio popular e, comprovadamente, tem agora mais meios do que em qualquer outro momento anterior, tanto em número de elementos activos como em capacidade para escolher os alvos".
Um relatório secreto da Defense Intelligence Agency [DIA, Serviço de Informações da Defesa], datado de 3 de Agosto, pormenoriza a degradação das condições de segurança no país e descreve como o Iraque está em risco de resvalar para a guerra civil, segundo vários funcionários que leram o documento ou receberam resumos do seu conteúdo.
O texto da DIA, intitulado "Actualização sobre o Iraque", reune os mais recentes dados empíricos sobre número de ataques, bombas, assassinatos e outros actos violentos, assim como diagramas das organizações que levam acabo ataques insurrectos ou sectários, disseram aqueles funcionários.
O conteúdo do relatório está a ser amplamente discutido por oficiais do Pentágono, por comandantes militares e, em especial, no Capitólio, onde cresce a preocupação dos legisladores mais proeminentes de ambos os partidos acerca desta contradição: mesmo numa altura em que o Iraque dá passos importantes em direcção à democracia - incluindo a eleição, nesta primavera, de um governo permanente - a violência não pára de crescer.
Quadros superiores do governo de Bush rejeitam a ideia de que o Iraque está à beira da guerra civil e declaram, com uma confiança imperturbável, que a estratégia dos EUA a longo prazo no Iraque se mantém em vigor. Mas os comandantes estadunidenses no Iraque deslocaram milhares de soldados das províncias exteriores para Bagdade, para enfrentarem a crescente violência na capital iraquiana.
O aumento dos ataques deu os seus frutos. O número mensal de estadunidenses mortos em combate diminuiu um pouco - 38 mortos em Julho, contra 42 em Janeiro, em parte reflexo de melhoramentos das blindagens e de outros meios de defesa -, mas o número de estadunidenses feridos disparou, de 287 em Janeiro para 518 em Julho. Os engenhos explosivos estiveram na origem de pouco mais de metade das mortes.
Uma análise da 1.666 bombas que explodiram em Julho mostra que 70% delas foram dirigidas contra as forças militares lideradas pelos EUA, segundo um porta-voz do comando militar de Bagdade. 20% atingiram forças de segurança iraquianas (9% em 2005). E 10% das explosões atingiram civis, o dobro da percentagem do ano passado.
Esta nova avaliação dos militares e dos serviços de informações vem provar que a violência no Iraque atingiu o seu nível mais alto de sempre. E descrevem dois perigos paralelos que o país enfrenta: violência insurreccional contra estadunidenses e forças de segurança iraquianas, que não parou de crescer desde que foi morto, em 7 de Julho, Al Zarqawi, líder da organização da Al-Queda na Mesopotâmia, e a violência primariamente sectária que se revela nos ataques inter-iraquianos que visam civis.
O Iraque está agora fechado num ciclo em que os ataques dos árabes sunitas originaram o crescimento das milícias xiitas, que por sua vez agravaram os receios dos sunitas. Além disso, muitos sunitas pensam que o novo governo, dominado pelos xiitas, não se empenhou o suficiente em criar um governo genuinamente unitário. Por isso endureceu a posição dos sunitas.
À medida que a política iraquiana se foi polarizando desde as eleições de Dezembro, em que os árabes sunitas votaram, os ataques dispararam em flecha, incluindo ataques sectários que mataram uma média diária de mais de 100 civis iraquianos nos dois últimos meses.
Para além das bombas, também aumentaram os ataques com morteiros, granadas lançadas por
rockets e armas de menor calibre contra forças militares s e iraquianas, segundo quadros militares estadunidenses. Mas o número de bombas de estrada - ou "engenhos explosivos improvisados", como são conhecidos pelas tropas - é um importante indicador da actividade do inimigo. Esses ataques à bomba são a causa maior de mortes de soldados estadunidenses. E também pressupõem uma rede organizada: alguém que as fabrica; fundos para financiar a actividade; e operacionais para cavar os buracos nas estradas, colocar os explosivos, espiar a aproximação das forças estadunidenses ou iraquianas e fazê-las detonar quando as tropas se aproximam.
Enquanto cresce a violência no Iraque, os serviços estadunidenses de informações estão a preparar uma Estimativa dos Serviços Nacionais de Informações acerca das condições de segurança ali existentes - a primeira estimativa oficial do governo no seu conjunto acerca da situação no Iraque desde o Verão de 2004.
Em Julho passado, funcionários da DIA tiveram reuniões com vários comités do Senado acerca da violência insurreccional e sectária. A apresentação era baseada numa versão ainda em esboço do que veio a ser o documento de 3 de Agosto, e um dos informados descreveu-a como "extremamente negativa". à apresentação seguiu-se a declaração pública, também em 3 de Agosto, do general John P. Abizaid, comandante militar máximo dos EUA no Médio Oriente, que disse ao Comité Senatorial para as Forças Armadas que a violência sectária era "provavelmente tão má quanto a vimos, sobretudo em Bagdade" e que, se não fosse contida, "é possível que Iraque caminhe para uma guerra civil". Mais tarde o general Abizaid sublinhou que se sentia "optimista" sobre a possibilidade de a evolução para a guerra civil poder ser travada.
Funcionários que leram ou foram informados sobre a nova análise da DIA disseram que as suas conclusões coincidiam com o testemunho do general Abizaid.
As informações mais recentes sobre os riscos de guerra civil no Iraque podem estar a modificar a dinâmica política em Washington. Depois das declarações do general Abizaid, o presidente do Comité para as Forças Armadas, senador John W. Warner, da Virgínia, disse que, se o Iraque entrasse em guerra civil, o Comité poderia ter de avaliar se a autorização dada pelo Congresso para a utilização de forças s no Iraque podia manter-se válida. Os comentários do senador Warner, eminente republicano que tem sido um forte apoiante do presidente, tiveram muito eco em todo o Congresso.
Funcionários do governo de Bush admitem agora que o plano original do governo iraquiano para controlar a violência em Bagdade, anunciado em Junho, falhou. O Pentágono decidiu a deslocação urgente de mais tropas estadunidenses para Bagdade e pensa-se que a nova operação militar para aí restabelecer a segurança terá início no começo do mês que vem.
No entanto alguns especialistas externos que visitaram recentemente a Casa Branca disseram que a administração Bush começa a preparar a eventualidade de o governo do Iraque, recém-eleito, não ter condições para sobreviver.
"Elementos importantes do governo confirmaram-me que estão a considerar alternativas não democráticas", disse um perito em assuntos militares que participou num
briefing na Casa Branca no mês passado e só aceitou falar sob anonimato.
"Toda a gente do governo aborda o assunto com bastante circunspecção", diz esse perito, "mas é visível que os preocupa o facto de tudo isto afastar uma solução democrática".
Artigo original (em inglês) em: http://www.nytimes.com/2006/08/17/world/middleeast/17military.html?_r=1&oref=slogin