Na hora da retirada das tropas israelitas do Líbano, o ministro Shimon Peres quis deixar a impressão de que a expedição militar fora um êxito. Fê-lo com o único argumento que poderia usar: anunciou que tinham matado 600 combatentes do Hezbolá e ferido mais 600, o que representaria, disse, ter posto fora de combate metade dos efectivos da guerrilha. As declarações de Peres valem o que valem. Desde logo, porque o líder sionista omite o que todas as fontes independentes confirmam: as vítimas mortais libanesas, acima de mil, foram na maioria civis e em grande parte mulheres e crianças. Depois porque silencia o facto de as tropas de Israel terem perdido mais de 120 homens, um sério revés para quem tem, de longe, o maior poder de fogo da região, e um sinal - tal como no Iraque com as forças norte-americanas - de que a resistência de base popular pode levar a melhor sobre os exércitos de ocupação quando se trata de pisar o chão.
Israel quer dar a impressão de que ganhou a guerra. Mas todos os comentadores com um mínimo de objectividade dizem o contrário. Israel destruíu o Líbano, mas não atingiu os objectivos que pretendia: não libertou os soldados feitos prisioneiros (o primeiro pretexto para a ofensiva), não liquidou o Hezbolá, não dividiu os libaneses (que pelo contrário reconheceram unanimemente na resistência armada a única força de defesa nacional), não conseguiu consolidar posições no terreno para ocupar o sul do Líbano. Israel perdeu também diante da opinião pública mundial que pôde ver, mais do que é costume, a barbárie posta em marcha - conhecimento este que se torna instrutivo sobre o papel que o sionismo tem desempenhado na região, nomeadamente na Palestina.
O revés israelita é também um revés para os EUA e para a Grã-Bretanha. Tornou-se visível o apoio aberto das potências invasoras do Iraque à expedição militar israelita - em armas, na propaganda e no jogo diplomático. Percebe-se o interesse: a situação no Iraque e no Afeganistão agrava-se a cada dia para os ocupantes; e o Irão não dá mostras de ceder às pressões ocidentais para que abandone o seu programa nuclear. A entrada em cena de Israel representou para os EUA e a GB a mobilização do maior exército da região, pago em dólares, para a grande campanha de colonização do Médio Oriente que Bush e Condoleeza Rice acreditaram poder ganhar impulso com esta nova frente de guerra. Voltaram a menosprezar, como no Iraque, a capacidade de resistência das populações.
Seria contudo uma ilusão grave pensar que Israel, com os EUA e a GB, desistem dos seus propósitos ou deixam de fazer uso da força. Pelo contrário, à medida que o seu campo de manobra político se estreita, mais recorrerão à única vantagem que detêm - a força militar - e de forma cada vez mais brutal. Os novos ataques aéreos israelitas ao leste e norte do Líbano, em violação aberta do cessar-fogo, são sinais disso mesmo. Israel não desiste de arrastar a Síria para a guerra e, atrás dela, o Irão. E este propósito concerta-se com os planos norte-americano e britânico.
Por estranho que possa parecer, é a própria resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o cessar-fogo que concede a Israel essa facilidade. "Óptima", dizem os responsáveis israelitas sobre a resolução; "injusta" dizem os libaneses. Na verdade, a decisão do CS, longamente negociada com a União Europeia (sobretudo via França e Alemanha) que viu a oportunidade de pôr o pé em coutada norte-americana, intima a resistência libanesa a cessar "todas" as acções militares e condescende com Israel ao permitir-lhe acções de natureza "não ofensiva". Ou seja, os agredidos são proibidos de se defenderem, enquanto é fornecida uma escapatória para que os agressores se mantenham nas posições que ilegalmente conquistaram. Richard Falk, o jurista norte-americano que coordenou o júri do Tribunal Mundial sobre o Iraque, em Istambul, observa muito justamente que, com isto, as Nações Unidas se mostram "incapazes de proteger qualquer Estado que seja vítima de uma guerra de agressão iniciada pelos EUA ou pelos seus aliados mais chegados". E constata que, mesmo sem apoiar os defensores das guerras de agressão, a ONU acaba por "colaborar com o agressor na situação pós-conflito ao ratificar os efeitos da agressão". Ou seja, conclui Falk, "as Nações Unidas são culpadas de tratar os iguais de forma desigual, e desse modo minam constantemente a sua própria autoridade" (ver: Assessing the United Nations after the Lebanon War 2006, em www.transnational.org).
O governo português - que não fez um gesto que pusesse em causa a política do seu antecessor quanto à agressão praticada contra o Iraque - voltou, em actos, a colaborar com os agressores ao permitir que a base das Lajes servisse uma vez mais de plataforma para passagem de material militar entre os EUA e Israel. As desculpas de um Secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre a natureza "não ofensiva " do dito material, de que se tratava de "pequena quantidade" e de que a autorização seria "excepcional", ficam para a história do ridículo. Quanto ao essencial - que é o alinhamento de Portugal com a política agressiva dos EUA e dos seus aliados - ganha todo o sentido, e tem infelizmente toda a actualidade, o apelo feito em Março de 2005 pela Audiência Portuguesa do TMI ao então recém-empossado governo de José Sócrates "para que, correspondendo à vontade da maioria da população portuguesa, reveja por completo a política seguida até à data e, designadamente, ponha termo à utilização da base das Lajes para fins de manutenção da ocupação do Iraque pelos EUA, e desenvolva todos os esforços políticos e diplomáticos para a reposição da legalidade no Iraque, a começar pela retirada dos ocupantes". Medidas profilácticas, como se vê.
Não era difícil prever, já na altura, que o caso do Iraque não seria único; e que, se o crime, tal como a cumplicidade, ficassem impunes, isso constituiria convite à reincidência. O mesmo problema se coloca de novo, agora, com a entrada ostensiva de Israel nos planos da guerra "infinita". Mais premente, portanto, se torna exigir uma mudança na política portuguesa.