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Oposição made in USA
6 de Agosto de 2007
Barack Obama, um dos principais candidatos do Partido Democrático na corrida presidencial do próximo ano nos EUA, levantou uma onda de indignação ao ameaçar, em declaração de 2 de Agosto, enviar tropas para o Paquistão a pretexto de perseguir “terroristas”, mesmo sem a autorização do governo paquistanês. De acordo com a imprensa, Obama declarou, diante da bandeira dos EUA: “Há terroristas escondidos nessas montanhas que mataram 3 mil americanos. Eles conspiram para atacar de novo... Se nós temos informações seguras dos serviços secretos sobre alvos terroristas de grande valor e o presidente Musharraf não agir, nós agiremos”.
 
Uma afirmação deste calibre é em tudo idêntica às declarações, essas sim terroristas, que fundamentaram a “guerra preventiva” posta em prática pelos republicanos no Afeganistão e no Iraque. Vinda da parte de um representante destacado da suposta “oposição” ao governo Bush – fica tudo dito acerca do que pode o povo norte-americano esperar de tal oposição.
 
Mas, bem vistas as coisas, nada disto é surpreendente. Desde sempre os democratas mostraram uma concordância de fundo quanto à política imperialista de Bush. Basta recordar que a actual administração apenas levou às últimas consequências aquilo que o democrata Clinton fez com o embargo ao Iraque ou os bombardeamentos ao Sudão – e que este apenas deu sequência à guerra desencadeada pelo republicano Bush-pai contra o Iraque em 1991.
 
Esta continuidade política tem sido, de resto, confirmada sucessivamente. Foi-o na questão dos orçamentos de guerra propostos por Bush no princípio do ano, dois ou três meses após os democratas terem ganho maioria na Câmara dos Representantes e no Senado. Foi essa maioria “de oposição” que aprovou os ditos orçamentos, dando efectivo curso à guerra.
 
Nova confirmação pôde ser constatada, há dias, num debate entre os candidatos democratas à presidência, transmitido pela CNN. De entre a dúzia de pretendentes, apenas um (que não é senador e não tem quaisquer hipóteses de ser nomeado candidato) se atreveu a exigir que os orçamentos para a guerra fossem chumbados para forçar ao fim da agressão; só ele exigiu de facto o regresso imediato das tropas norte-americanas – causando, aliás, visível incómodo nos parceiros mais bem cotados.
 
As declarações de Obama correspondem à postura de quem se sente próximo do poder e parte integrante do poder. O que mostra que, no quadro de forças existente de momento nos EUA, só poderá ser eleito quem, republicano ou democrata, assegure a defesa dos interesses norte-americanos no Médio Oriente – o que é dizer, dar continuidade à política de guerra.
 
A colagem cada vez mais aberta dos candidatos democratas à política de guerra parece contraditória com a queda de popularidade de Bush nos inquéritos de opinião. Poderia pensar-se que os democratas aproveitariam a fundo esse terreno para obter apoio. Mas isso, como agora se percebe bem, seria um jogo perigoso para quem conta exercer amanhã o poder na Casa Branca. Uma coisa são as exigências do poder, outra a vontade da população. E a verdade é que o repúdio pela guerra de grande parte da população norte-americana não encontra eco na postura dos democratas. Este facto mostra, por si, que o desejo de muitos norte-americanos de que a guerra acabe não se traduz ainda num movimento massivo, com capacidade para marcar o rumo político. É com essa fraqueza que o poder, republicano ou democrata, conta para prosseguir a via das agressões militares.
 
Tal fatalidade só será revogada quando o movimento de base popular de oposição à guerra ganhar força nacional e independência face ao poder – seja o poder em exercício, seja o poder de reserva.
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