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A liquidação de Al-Zarqaui: um feito sem resultados
26 de Junho de 2006
A morte de Al-Zarqaui representa para os EUA não propriamente uma vitória militar mas o queimar de um trunfo. Esse trunfo começou a ser usado ainda antes da invasão do Iraque. Concretamente, em Fevereiro de 2003, com a célebre e desgraçada intervenção de Colin Powell nas Nações Unidas. Da mesma maneira que apresentou as "provas" que se sabe acerca das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, Powell deu a conhecer, desde logo, o inimigo público n.º 1 dos EUA no Iraque para depois da invasão: a Al-Caida e o seu chefe Al-Zarqaui. Percebe-se a antecipação: uma vez deposto o "demónio" Saddam, outro teria de o substituir. Até liquidarem Al-Zarqaui, com efeito, praticamente não houve atentado nem acção militar no Iraque que os EUA não atribuíssem à Al-Caida e ao seu líder. E assim vão continuar a apresentar as coisas.
 
Tem sido cómodo à propaganda dos EUA atribuir a resistência não aos iraquianos mas a supostos "estrangeiros"; e pintar o quadro como se os iraquianos estivessem conformados com a "democracia" que os EUA lhes impuseram e as acções militares contra a ocupação fossem obra de "terroristas" vindos de fora. O papel atribuído ao "estrangeiro" sempre constituiu um elemento-chave na propaganda dos colonizadores, na tentativa de diminuírem as capacidades e a legitimidade da resistência dos colonizados. E, bem assim, na tentativa de justificarem a sua própria presença em terra alheia: não são os indígenas que não nos querem, são os "agentes estrangeiros"...
 
Ora, as provas dadas pelos EUA sobre Al-Zarqaui valem tanto como as que foram apresentadas sobre as armas de destruição massiva. O papel da Al-Caida no Iraque - não falando já no facto de ter sido a invasão que lhe abriu as portas do país - é diminuto em comparação com o da resistência nacional iraquiana. Aquilo que os EUA defrontam não são agentes a soldo - é uma vasta coligação de forças patrióticas, com objectivos nacionalistas, dispondo de largo apoio popular, com programa político para governar o Iraque, e que não aceitam qualquer presença militar estrangeira no seu território. De acordo com o testemunho do dirigente da Aliança Patriótica Iraquiana, Al-Kubaysi, quando em Março se deslocou a Portugal, as forças da Al-Caida medem-se por algumas centenas de efectivos, enquanto as forças da Resistência contam muitas dezenas de milhares de homens. É daqui que advém a capacidade de ataque aos ocupantes, coisa que os EUA não querem reconhecer de modo nenhum.
 
As palavras de Bush quando anunciou a morte de Al-Zarqaui denunciam, porém, o melindre da situação dos EUA no Iraque. Disse ele que era agora oportunidade para "mudar a maré", dirigindo-se ao primeiro-ministro iraquiano empossado há pouco. Quer dizer, então, que "a maré" não tem sido a que os EUA anunciaram até aqui. Quer dizer que "a maré" tem sido contrária à estabilização proclamada. Quer dizer que "a maré" é de contestação da presença dos invasores. Mas, assim sendo, como de facto é, uma tal "maré" não pode ser mudada pelo governo que os EUA empossaram e tutelam.
 
Os EUA tinham de mostrar serviço. Depois de um tormentoso processo de muitos meses até conseguirem formar um novo governo; diante das provas acerca do massacre de Haditha, em que uma dúzia de bravos marines assassinaram 24 civis em vingança por um ataque da Resistência; face à impopularidade de Bush no seu próprio país e às nuvens que sobre ele pairam para as próximas eleições legislativas norte-americanas; diante da evidente incapacidade de estabilizar politicamente o Iraque - perante tudo isto, os EUA tinham necessidade de um gesto espectacular. A liquidação de Al-Zarqaui cumpriu essa função. Mas o seu efeito vai ser tão duradouro como foi o da prisão de Saddam Hussein, anunciada na altura como o princípio do fim da Resistência. Viu-se.
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