"Isto é que é terrorismo, isto é que é terrorismo!" - repetia uma mulher portuguesa residente no Líbano, entrevistada pela TVI no telejornal do dia 16. Uma outra dizia, de Beirute, à agência Lusa, no dia 19: "Só se ouve mísseis e bombas. Passei a guerra em Angola e nunca vi coisa igual. Uma cidade inteira está a ser destruída. É horrível". Uma terceira descreveu à SIC como, no caminho de fuga até ser evacuada, tinha visto os cadáveres destroçados e queimados dos civis vitimados pelos bombardeamentos. O próprio ministro dos Negócios Estrangeiros britânico declarou à BBC em Beirute, dia 22, que a destruição de infraestruturas e a morte de tantas crianças e civis por todo o Líbano não eram fruto de ataques "cirúrgicos".
O propósito israelita é o de levar a cabo uma destruição generalizada do país. Isso está patente no próprio nome dado à operação militar: "Chuva de Verão" refere-se evidentemente ao dilúvio de bombas e mísseis que o testemunho acima referia. Nessas condições, falar em poupar as populações civis é mera retórica de propaganda. Os resultados estão à vista. Perto de 300 mortos libaneses em onze dias, quase um milhão de refugiados sem água, sem comida, sem abrigo. A pretexto de cortar rotas de abastecimento e de fuga ao Hezbolá, as infraestruturas e vias de comunicação foram destruídas nos primeiros raides, aprisionando de facto centenas de milhares de pessoas nas zonas de combate. Com a desculpa de que a guerilha se confunde com a população, as áreas residenciais são repetidamente bombardeadas. Além disso, fábricas e demais estruturas económicas são arrasadas.
Os israelitas reeditam no Líbano a operação "Choque e pavor" com que os EUA iniciaram o ataque ao Iraque em 2003 - operação esta que, por sua vez, fez uso, em escala ampliada, dos ensinamentos do terror israelita praticado sobre populações e áreas residenciais palestinianas. A escola comum é tal que, assim como os líderes norte-americanos se propuseram reconduzir o Iraque à era pré-industrial, também os dirigentes israelitas declararam querer fazer o Líbano recuar 30 anos.
Não está em curso nenhuma "escalada", ideia que pressupõe uma resposta taco-a-taco das partes envolvidas; nem nenhuma acção de "legítima defesa". O que se passa é uma agressão unilateral, pura e simples, de Israel ao Líbano em violação de tudo o que é direito internacional. Ao mesmo tempo que se intensifica o morticínio de palestinianos em Gaza.
Este massacre em duas frentes só pode ser entendido - quer nos seus processos, quer quanto aos perigos que encerra - se for visto no quadro do assalto norte-americano a todo o Médio Oriente. De facto, a ambição dos EUA de colonizar toda a região depara com crescentes dificuldades. No Iraque é o que se sabe, no Afeganistão cresce a guerrilha armada, os palestinianos mostraram que não estão mais dispostos a ceder sem ganhos, o Irão resiste às pressões ocidentais.
Num jogo que se complica de dia para dia, e sem resolução a vista, pode ser uma tentação para os EUA alargar o campo de batalha, trazendo o fiel parceiro para a liça directa, na esperança de, com isso, alterarem por via militar os dados de um problema que não conseguem resolver por via política. Daí a consonância perfeita entre as acções israelitas e a postura norte-americana: recusa de cessar-fogo antes de o arrasamento do Líbano estar completo; e acusações repetidas à Síria e ao Irão, os alvos por detrás do alvo deste serviço combinado israelo-norte-americano.
Aos poucos, vai-se desdobrando a lógica global, sem limites, sem lei, da "guerra infinita", dita "contra o terrorismo", da potência norte-americana. Como as organizações ligadas ao Tribunal Mundial sobre o Iraque têm sublinhado, é o Médio Oriente por inteiro que está sob a mira dos EUA. O ataque de Israel ao Líbano entronca, agora de forma aberta, na linha de actuação do imperialismo norte-americano e anuncia um agravamento da situação mundial.